Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Agô, o predestinado

De dentro do útero para dentro de uma caixa de papelão, nas ruas de Ribeirão Pires, região do Grande ABC. Depois, para a casa de Cida e, finalmente, para os braços de Daniele.

Ele não é patrocinado por uma fabricante de material esportivo, não faz comerciais de cerveja e não atrai paparazzi, mas sem sombra de dúvida, é um fenômeno capaz até mesmo de superar o humor negro que originou o próprio nome. “Quem o encontrou nos disse que ele estava agonizando, repetia muito isso. Daí, resolvemos colocar o nome nele de Agô”, conta Aline Cristina, técnica veterinária e funcionária do Clube dos Vira-Latas, a Organização Não Governamental (ONG) para a qual foi levado.

Desde a salvação, Agô já demonstrava ter nascido com o rabo longilíneo virado para a lua. Coube à protetora de animais Cláudia São Bernardo, conhecida pela habilidade de sempre cruzar com cães da raça São Bernardo abandonados, topar com o SRD caramelo, acompanhado de duas irmãzinhas, uma delas já sem vida.

Aos recém-iniciados no universo dos cachorros de rua, SRD é a sigla para sem raça definida, termo politicamente correto usado para designar o bom e velho vira-lata.

Logo que chegaram ao Clube, com aproximadamente 20 dias de vida, os dois membros remanescentes da família Agô foram diagnosticados com cinomose, virose que ataca principalmente o sistema nervoso e costuma ser fatal. A maior parte dos animais sobreviventes sofre com sequelas como paralisa nas patas. Após dois dias, apenas ele resistiu, tratado à base de mamadeira e papinha. A única lembrança da enfermidade é uma leve fisgada na pata dianteira da frente, espécie de tique nervoso, quase imperceptível.

Além de refúgio para cerca de 350 cachorros, o Clube dos Vira-Latas é a residência de Cida Lellis, presidente da entidade. Há quatro anos ela trocou a casa onde morava por uma chácara de quase 400 m², em um município na região metropolitana de São Paulo. No local que prefere não divulgar para evitar uma leva de abandonos diante do portão, vive cercada por árvores e conta com seis funcionários para manutenção e um veterinário. Solteira e sem filhos, a professora aposentada optou por se dedicar exclusivamente a cuidar de bichos. Sorte do então novo hóspede, recolhido à cozinha para evitar a contaminação dos demais animais.

No primeiro sábado de maio, dentro de uma bolsinha, Agô embarcou em um Táxi Dog, no colo de Aline, rumo à feira inaugural de animais deficientes promovida pela ONG Sava (Solidariedade à Vida Animal). A organização funciona como uma espécie de central responsável por convocar a rede de parceiros para as feiras e mutirões de castração.

O jovem de dois meses não seguiu sozinho. Teve a companhia de Lúcio, um companheiro marrom claro, vítima de um atropelamento na avenida Jabaquara que lesionou a medula e impede a movimentação das patas traseiras. Nada que uma cadeira de rodas adaptada não resolva.

Dentro do Pet Shop Tancredo Dogs, na Avenida Tancredo Neves, zona sul de São Paulo, as histórias e os latidos se misturam. Sem a pata direita dianteira, amputada após complicações causadas também por um atropelamento, Mel se faz perceber logo na entrada. Com porte semelhante ao de um labrador, ela é a maior entre os SRDs acomodados em duas fileiras de gaiolas com grades brancas e babados cor de rosa. Movimenta-se sem grande dificuldade e deixa os visitantes lhe acariciarem a cabeça, apesar de ficar receosa com crianças. “Ela deve ter sido machucada por alguma”, acredita Eliana Matiussi, madrinha que custeia os gastos com o veterinário e a hospedagem da afilhada.

Também professora aposentada, casada, dois filhos e três netos, Eliana é uma dos milhares de pessoas dedicadas a recolher animais em situação de risco para mantê-los em clínicas até a oportunidade de adoção. São os chamados cuidadores independentes. Graças à Internet, o trabalho deles ficou muito mais fácil. Boa parte integra comunidades virtuais por meio das quais divulga a realização de eventos, faz denúncias de maus-tratos e pede socorro para manutenção de abrigos e acolhimento de animais.

Com a ajuda da rede reuniram cerca de mil pessoas diante do canil do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), na capital paulista, no final de abril. “O CCZ não faz campanha de adoção, mistura cães sadios com doentes, grandes com pequenos. Os bichos acabam se matando, transmitindo viroses uns para os outros”, diz Arlete Martinez, presidente da Sava, explicando a razão da manifestação.

“As ONGs não podem entrar para fotografar os animais e tentar doá-los, nem retirá-los para levar a feiras. Não conseguimos sequer promover mutirões para banho e tosa. Não há explicação”, complementa Roberta Roperto, voluntária da mesma entidade.
Desde 2008, uma lei estadual impede a eutanásia de animais saudáveis em São Paulo. Com isso, a carrocinha passou a atuar somente em casos de denúncias, como quando algum animal oferece perigo.

Ao lado de um entediado, indiferente e sonolento Agô, uma cadelinha marrom claro chama atenção. De nome Leci, foi encontrada na rua e abandonada em uma clínica veterinária. Foi outra que conseguiu vencer a cinomose, mas perdeu os movimentos das quatro patas. Isso faz com que tenha de permanecer de fralda e ser trocada a cada duas horas para não ficar assada. Arlete confia na acupuntura para fazê-la mexer as patas da frente. Dessa forma, poderia garantir parte da independência com uma cadeira de rodas semelhante a de Lúcio.

Independência que não falta a Pituxo, um rechonchudo SRD branco com manchas pretas sem a pata direita dianteira, fruto de má formação congênita. Mas esse não está disponível para adoção. Não agora. Há nove anos, por indicação de Arlete, Teresa Salvetti o levou para casa quando era apenas um filhote de mês e meio. Na casa da engenheira elétrica, em Santo André, era impossível se sentir deslocado. “Temos a Menina, trípede, a Xuxa, cega, o Roni com problema na coluna e a Doris, com início de convulsões”. Além desses, Teresa cuida de outros três, com apoio do marido, Fowler Braga Filho.

Filho é presidente da Focinhos Gelados, ONG que mantém a campanha Animal Saudável é o Bicho. A iniciativa, em parceria com o Estado, discute zoonose e legislação de proteção aos animais em escolas públicas integrantes do programa Escola da Família. Profissional na ação e no discurso, ele acredita que pedir doações por piedade é a pior forma de conseguir apoio empresarial à causa animal. “Quando eu sento com o empresário, ofereço uma oportunidade de ele fazer um trabalho de responsabilidade social e corporativa”.

As feiras de adoção da Sava acontecem desde 2004, ano de fundação do grupo. Atualmente, as edições são mensais. Para obter a guarda de um animal é preciso ter mais de 21 anos, apresentar RG, CPF, comprovante de residência, responder um questionário e ser ser capaz de amar e oferecer carinho. Parte do custo para manutenção dos bichos é paga por meio da realização de bingos e bazares beneficentes. A grande fatia, contudo, sai do bolso dos protetores.

Nos eventos com animais sem deficiência, a média é de 20 adoções. Dessa vez, três encontraram um novo lugar para morar. Cego, um cão de cerca de oito anos, pelos marrom escuros e cujos olhos foram perfurados na rua, agora se chama Teco e fará companhia para Liliane Medeiros e Renato Kenjiro. “A maioria tinha protetor, menos ele. Fiquei sensibilizada e resolvi levá-lo”, declara Liliane. Será o sexto na casa, além dos 12 que a adestradora mantém na residência da mãe. No primeiro dia, Teco ficou um pouco alheio, deitado perto do portão, mas logo mapeou o quintal e sempre que ouve chamarem seu nome ou estalarem os dedos, chega balançando o rabo.

Mesmo destino teve Pandor, depois Adamastor e atual Sheldon. “Meu marido tinha dificuldade para dizer Adamastor”, explica Natália Rogek, que chegou como voluntária ao Tancredo Dogs e saiu como mãe adotiva. Outra provável vítima do trânsito paulistano, o cachorro de pelos pretos e cerca de dois anos teve de passar por uma cirurgia para retirada da pata dianteira, após uma protetora encontrá-lo com uma fratura mal curada. Enquanto os pontos da cirurgia não cicatrizam, Sheldon tem o privilégio de dormir ao lado de uma gata, sua melhor amiga, na cama da bióloga e do marido. Nada mal para quem ficou quase dois meses em uma clínica.

Antes de todos eles, Agô mostrou a estrela mais uma vez. Daniele Jorge chegou às 14h na feira, motivada pelo desejo da filha de cinco anos de ter um mascote e com indicações de pessoas que anunciam animais na Gazeta do Ipiranga. Ao invés de comprar, resolveu adotar. “É uma atitude mais de coração. Você vê tantos abandonados na rua”, comentou. Foi paixão à primeira vista. Da mesma forma que os outros, Agô mudou de nome e agora reina absoluto como Beethoven, na Vila Carioca, zona sul de São Paulo.

Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde, há cerca de 20 milhões de cães no Brasil. De acordo com os protetores, os grandes responsáveis pelo abandono são a falta de ação do poder público para promover campanhas de conscientização sobre posse responsável, pouquíssimos programas de castração para controlar a superpopulação e no caso da capital paulista, a precária estrutura do CCZ para absorver animais abandonados.

Há ainda o problema da aquisição de animais da moda por impulso. “Algumas pessoas compram raças de grande porte como pit bull, rottweiler, labrador e largam no meio da rua porque se mudam para apartamento ou porque fica muito caro para cuidar depois que crescem”, aponta Arlete.

Mel, Lúcio e outros 10 cães voltaram para lares provisórios. Quando Agô encontrou um dono, Aline comentou sobre a “tristeza de ver ir embora”. Mas, como todos os outros parceiros, ela espera que a estadia nas ONGs seja apenas um processo de transição. Certo mesmo é que a vida dos bichos seria mais difícil, não fossem as entidades e principalmente, a ação dos defensores independentes. Como definiu Filho, “um inestimável exército de gente que fica no anonimato”.

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

De flores e curativos

Foto: Andre Arruda (Samba Photo)

Por Washington Luiz Araújo

Último dia de ano, duas e meia da tarde, sol escaldante lá fora, ar refrigerado numa farmácia do Flamengo, Rio de Janeiro. Estou comprando meus últimos suprimentos para entrar no ano novo sem dor de cabeça, já que não comprei o suficiente para as noites anteriores e minha “cachola” estava pagando por isso.

Ao adquirir meus envelopes de Engov ouço uma voz: “moço, o senhor tem um pedaço de esparadrapo?”. Não. Foi o que respondeu de pronto o balconista. Até processar o diálogo na minha combalida cabeça ressacada, o rapaz que solicitou o pedaço de curativo já estava saindo da farmácia.

Acompanhei seus passos claudicantes e vi que parou atrás de um monte de flores e ali sentou. Comprei uma caixinha de band-aid, por R$ 1,29, tirei dois e levei até o vendedor de flores que sofria com o sapato apertado. Vai saber quanto tempo não usa um calçado novo? Entreguei os curativos e ouço um muito obrigado, além da oferta de flores. Poderia pegar as que eu quisesse.

Encabulado, não querendo dar muito prejuízo, pego um botão de rosa vermelha, mas este traz outro enganchado pelos espinhos. Tento soltá-los, mas ouço o rapaz: “Pode ficar com os dois e feliz ano novo”. Certamente, os dois botões custavam bem mais do que a caixinha de esparadrapo, da qual só subtraí dois curativos e fiquei com o restante.

Saí, com cara de bobo alegre, ostentando as duas rosas, com espinhos e tudo. São estas rosas que ofereço a vocês.

E o ano novo começou.

Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Entrevista: Renata foi ao Paquistão

Fotos: Renata Castello Branco

A fotógrafa paulistana Renata Castello Branco, 53, filha de um piauiense com uma gaúcha, caminhou durante oito meses pelas ruas da maior comunidade de São Paulo. A câmera digital Cannon foi seu passaporte para ingressar na euforia e na melancolia dos anônimos que compõem as 140 páginas do livro “Heliópolis”.

Por sugestão do Secretário de Educação da Cidade de São Paulo, ela resolveu deixar o estúdio na Vila Mariana, em dezembro de 2007, para registrar a vida presente nos cultos, nas conversas de calçada e nas roupas estendidas no varal.

Também visitou o Paquistão, um lugar onde nem mesmo a união dos moradores tem grande influência. Foi aí que precisou usar a lábia e o poder da imagem.

Com apoio da Fundação Padre Anchieta e da própria Secretária Municipal de Educação, a editora DBA lança na quarta-feira, dia 10 de dezembro, o resultado dessa imersão. A noite de autógrafos de “Heliópolis” acontece às 20h, no Centro Cultural São Paulo.

É uma oportunidade única: por problemas burocráticos, o material não poderá ser vendido. Quem comparecer levará para casa uma edição da obra que será distribuída para escolas da cidade.

Um dia antes do lançamento, Renata recebeu a reportagem de Anonimato S/A para falar sobre o início da carreira, os bastidores do projeto e a interferência da imagem na vida do cidadão comum.

Como surgiu sua paixão pela fotografia?
Renata Castello Branco – Quando eu tinha 17 anos, meu pai, Renato Castello Branco – um publicitário que começou a vida como escritor – se aposentou e resolveu fazer um trabalho com cunho jornalístico sobre Sete Cidades, um parque de formações rochosas no Piauí. Ele me levou junto, porque eu tinha interesse em arqueologia. Comprou uma (câmera) Nikkon e jogou na minha mão, pedindo para eu fotografar as formações e as inscrições rupestres. Eu adorei! Até fui fazer faculdade de História, mas no meio do caminho já sabia que não era isso que eu queria.

E o primeiro emprego?
Renata – Antes da faculdade eu fui trabalhar no estúdio do Chico Albuquerque, o maior de São Paulo na década de 1980. Ele foi o responsável por fazer a transição da ilustração para a imagem na publicidade. No acervo dele eu encontrei coisas incríveis, como propagandas que eram metade ilustração, metade fotografia. Desenhava-se uma escadinha na parede e uma luminária, bem rudimentares, e aí fotografavam uma mulher de forma que parecesse subir os degraus.

A estrutura era boa?
Renata – Cheguei em um período de muito investimento. Para fotografar um fogão, montava-se uma cozinha inteira dentro do estúdio. Era a época da grana, a mídia impressa tinha um valor enorme. Depois, saí para fazer faculdade, mas já começava a pegar uns trabalhinhos. Comecei a trabalhar com publicidade, iluminação e depois com retrato, que eu sempre gostei e aprendi a fazer com seu Chico. Passei a fazer muitos retratos empresariais, corporativos, de campanha política e acabei conhecendo os marqueteiros. Descobri aí o segmento que é meu foco: fotografia para campanha pública. Eu trabalho mostrando a gestão dos governos.

O livro Helíópolis tem um enfoque publicitário?
Renata – Não tem, mas surgiu a partir de um contrato que fechei com a secretaria de educação para falar sobre a gestão de uma forma geral. O secretário, que tem uma visão abrangente, encomendou um livro autoral sobre Heliópolis, porque a comunidade possui um projeto educativo muito interessante. Ele sugeriu que fosse feito dentro de um pacote de coisas que eu estava produzindo, mas com total liberdade.

O que você destaca no processo de elaboração do livro?
Renata – A parte testemunhal foi o que me encantou. Não deixa de ser uma delícia ver o livro pronto, mas o grande barato foi a jornada: entrar nas ruas, andar aleatoriamente por elas, pelos becos, buscando o que tem atrás de um varal, de uma porta entreaberta. Ouvir histórias, tomar cafezinho com as pessoas, ouvir desabafos. Uma relação que só foi possível porque eu tinha uma câmera pendurada no pescoço. A câmera fotográfica foi uma espécie de passaporte para interagir com as pessoas em uma comunidade que tem uma associação muito atuante (UNAS – União de Núcleos, Associações e Sociedades de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco).

Qual era sua pretensão quando você começou a fotografar?
Renata – Nenhuma. Entrei lá rasa. Inclusive, no começo estava no caminho errado. O primeiro contato que eu tive foi através da UNAS e se eu não tinha nenhuma amarra nem com a prefeitura, nem com o secretário, me sentia atada à entidade. Porque eles estavam me mostrando a fachada institucional. Não que eles falaram o que eu tinha que fazer, mas, naturalmente, mostraram os projetos que desenvolviam. O primeiro passo foi perceber a necessidade de andar aleatoriamente, conversar, conhecer e entender aquele lugar, focando em coisas que iriam contar a história que eu gostaria.

Você encontrou alguma dificuldade para registrar as imagens?
Renata – Sempre havia alguém me acompanhando, você só circula acompanhada. Tem os lugares que a UNAS leva porque sabe que as pessoas vão gostar e onde o acesso já está negociado. Existe uma realidade paralela, não há um dia em que se ande por lá e não se veja o tráfico acontecendo ao lado. É uma coisa consentida. E eu queria ir nesse lugar aqui (aponta a imagem de um espaço chamado Paquistão, onde há a inscrição: “como pode um soldado pregar a paz, se foi treinado para a guerra”), só que a UNAS não tem acesso. Quando me dei conta, estava negociando com traficante para conseguir entrar. É o lugar mais barra pesada da comunidade, onde a influência da UNAS não existe. Recebi telefonemas em que ouvi coisas como “nós vamos te acompanhar, mas você vai fotografar as crianças do hip hop. Você não quer ir embora sem sua câmera, né?”.

Como os moradores a recebiam?
Renata –
Com uma exceção, não houve resistência. Só encontrei problema quando comecei a fotografar umas casas que estavam sendo demolidas e tinha uma encrenca qualquer com a prefeitura, algo ligado à desapropriação, não sei bem. E aí ouvi umas coisas ruins, algo como “te meto uma bala na cabeça”. Mas, 90% do tempo fomos super bem recebidos. Tem também essa coisa da câmera digital que você fotografa e a pessoa compartilha na hora. Muitas vezes eu me colocava no lugar dos moradores e pensava que eu não gostaria de ser fotografada em uma casa de palafita, numa condição muito difícil, mas as pessoas eram receptivas.

Houve algum outro momento de tensão?
Renata –
Em uma oportunidade, no Paquistão, estávamos numa ‘fusqueta’ lá da prefeitura, quase uma Brasília. O menino que guiava era um garoto de boné. Meu assistente também estava de boné. Mesma coisa um outro rapaz da rádio comunitária que nos acompanhava. E eu e minha coordenadora sentadas no banco de trás. Acho que os policiais pensaram que era um seqüestro e chegaram apontando armas para a cabeça deles. Foi complicado explicar que eu e ela não éramos vítimas.

O que a surpreendeu?
Renata – Uma das coisas que mais chamou minha atenção foi uma história que o Gil, fotógrafo da comunidade, contou. Ele nos explicou que uma região colada à essa do Paquistão sofria dos mesmos problemas e não era acessível. Até o tráfico entrar e moralizar. Não rola mais briga, não se vende droga para os menores de lá de dentro, não tem tiro à noite. Depois que o tráfico entrou e estabeleceu uma porção de regras, entra até caminhão das Casas Bahia, que não chegava. O tráfico faz o papel que o Estado deveria fazer.
Você tem filhos? Conversou com eles sobre a rotina das fotos para o livro?
Renata –
Sim, tenho dois. Minha filha mora no Rio de Janeiro, então conversava mais com meu filho de 19 anos, que mora comigo. Eu contava meu dia-a-dia para ele, mas não é diferente do que fiz a vida inteira. Sempre procurei mostrar um lado que não é o que ele vive. Que a vida não é só Itaim e Nossa Senhora das Graças. Quando ainda era pequeno, vimos juntos o documentário do ônibus 174 e falarmos sobre absurdos como aqueles mauricinhos que botaram fogo no índio, em Brasília. A rotina não mudou por ter esse trabalho. Eu sempre me preocupei em conversar com eles sobre essas questões, não foi diferente nessa ocasião.

Como sua atividade pode interferir na vida das pessoas?
Renata – Eu acho que o fato da prefeitura escolher Heliópolis para fazer esse trabalho é um reconhecimento de que se trata de uma comunidade importante. A maneira como a comunidade está representada no livro é legal para a auto-estima, mesmo sendo impossível não mostrar as dificuldades. Mas, estão também representadas a força, o vigor, a criatividade, a alegria. E isso só há de melhorar a auto-estima. Não que seja ruim a auto-estima deles, acho que eles estão bem. Como trabalho com governos de Estado, prefeituras do Brasil, já estive em outras comunidades. Há três anos faço a Baixada Fluminense, a região da Guarapiranga, em São Paulo, então, tenho parâmetros para comparar e dizer que Heliópolis é a mais organizada.

Você manteve laços de amizade com as pessoas?
Renata –
Eu não vi mais as pessoas com quem convivi, verei novamente amanhã (dia 10 de dezembro, data de lançamento do livro). O Régis, da Rádio Heliópolis, estará lá e virá um ônibus da comunidade. Lembro de algumas pessoas com muita admiração, mas estabelecer laços de amizade é difícil. Eu estou aqui e eles lá. Mas, com certeza, se precisarem de alguma coisa sabem que podem contar comigo. Isso eu acho que a gente pode chamar de laço de amizade.

Qual a visão que a obra apresenta sobre Heliópolis?
Renata – A síntese para mim é que a comunidade, pela condição de vida das pessoas, tem um tanto de dor, mas muito de alegria e de criatividade. Essa alegria passa de dentro das casas para as ruas, coloridas, grafitadas. Você anda por lá e sempre há alguém ouvindo música alto, as pessoas conversam muito, brincam. É uma comunidade que tem a polaridade muito forte. A dor e a alegria são sentimentos que convivem paralelamente o tempo todo. Essa foi a realidade que eu vi.

Serviço
Heliópolis”
Editora: DBA (Dórea Books and Art)
Fotos: Renata Castello Branco
Projeto gráfico: Sylvain Barré
140 páginas
Lançamento: 10 de dezembro, quarta-feira, a partir das 20h, no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso/SP).

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

Brasil: sétimo lugar na Copa de Rua

foto: Talita Matos

Foi por pouco: a derrota por 5 a 4 para a Rússia impediu que a seleção brasileira de futebol de rua chegasse às quarta-de-final do torneio. Ainda assim, foi a melhor campanha da equipe nos últimos cinco anos.

Uma forte chuva a poucos minutos do início da partida contra o time russo deixou o piso molhado e provocou muitas contusões, inclusive do goleiro brasileiro Diego. Apesar do resultado desfavorável, a seleção mostrou um grande poder de superação. Depois de tomar 4 gols no primeiro tempo, tirou a diferença, mas não alcançou o empate.

No jogo seguinte, o Brasil venceu a Ucrânia nos pênaltis e ficou com o sétimo lugar.

O campeão desta edição da Copa foi a seleção do Afeganistão, que derrotou a Rússia por 5 a 4. Em terceiro ficou Gana, seguida por Escócia, Quênia e Inglaterra.

De acordo com a assessoria brasileira, fora de campo a disputa foi importante para os países latino-americanos (Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Colombia e Mexico) estreitarem laços visando a criação de um movimento regional e a disputa da Homeless World Cup em 2010, na América do Sul, muito provavelmente no Brasil.

A seleção brasileira jogou 12 partidas, venceu duas, fez 92 gols e sofreu 30, saldo positivo de 62 gols.

Jogos do dia 02/12
Brasil 4 x 6 Ucrânia
Brasil 11 x 1 Malaui
Brasil 15 x 3 Argentina


03/12
Brasil 8 x 3 Timor-Leste
Brasil 8 x 1 Lituânia

04/12
Brasil 11 x 0 Hong Kong
Brasil 7 x 3 Noruega
Brasil 10 x 4 Quênia

05/12
Brasil 2 x 1 Portugal
Brasil 9 x 0 Hungria

06/12
Quartas de final:
Brasil 4 x 5 Rússia

07/12
Disputa do sétimo lugar
Brasil 3 (1) x (0) 3 Ucrânia
* Brasil venceu por 1 x 0 nos penâltis

Para ler a reportagem sobre a preparação da equipe, visite nosso site: www.anonimatosa.com.

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Flores sobre o túmulo

Por Luiz Carvalho (texto) e Marcio Brigo (imagens)

Caso o poeta realmente tenha razão, o Largo General Osório, na região do centro velho paulistano, é uma explosão de flores sobre o túmulo do samba. Não em sinal de nostalgia, mas numa sublime nota de resistência.

A esquina da Rua General Osório com a Rua dos Andradas, onde duas dezenas de pessoas se juntam às portas de um bar e em torno de cuíca, cavaquinho, bandolim, pandeiro e outros objetos que viram instrumentos de percussão, é um aperitivo antes do apogeu. E um exemplo de democracia. Na altura do número 98, do lado esquerdo, a placa indica Osório com ‘s’. Do lado direito, o endereço vira Ozório. Para evitar o embate, vamos pelo apelido: eis a Rua do Samba Paulista.

A nata do estilo musical se reúne todo último sábado do mês em apresentações conhecidas por já terem recebido quase todos os bambas da cidade e mesmo de outros estados. Sob uma tenda branca, em cima de um pequeno palco, embaixo de holofotes e cercado por grades de proteção, os 11 integrantes do Samba Autêntico, grupo de pesquisa sobre o samba paulista, ensaia antes de começar a edição de aniversário.
Seis anos e 72 encontros depois, o espetáculo não acontece mais em frente à loja de instrumentos musicais Redenção: em 2006, passou a fechar uma via no bairro Santa Ifigênia, paraíso de produtos eletrônicos. Partiu de uma platéia de 150 pessoas para reunir cinco mil perante a maior sala de concertos de música erudita da América Latina: a Sala São Paulo, no Complexo Cultural Júlio Prestes.

A regra e o mestre – “A nobreza gosta da música, mas não chega para ver e ouvir”, comenta Roberto Oliveira dos Santos, o Beto, integrante da UNEGRO (União de Negros pela Igualdade), uma das responsáveis pelo evento. Egresso dos movimentos estudantil e sindical, ele define o encontro como uma roda com viés político, cultural e transformador. Econômico também. “Optamos pelo último sábado do mês porque todo mundo está duro”.

A preocupação, segundo conta, é fazer política cantando sambas de raiz, sem transformar o espaço em palanque. No intervalo para o descanso dos músicos, Beto e a direção da UNEGRO utilizam o microfone para lembrar à platéia, majoritariamente jovem e vestida para a balada, que a Rua do Samba é “radicalmente favorável às políticas de ações afirmativas, às cotas e ao Estatuto da Igualdade Racial para acabar com a centralização de renda”.

Ele não é sambista, então faz as vezes de mestre de cerimônias e ouvidor. Após receber reclamações do público feminino a respeito de letras machistas, resolveu conversar com os partideiros. O resultado foi a roda de samba das mulheres, que acontece em março. Ao menos neste mês elas é que mandam no terreiro.

A regra da rua é simples: velha guarda entra sem pedir, quando quiser, ao contrário dos novos compositores, submetidos ao crivo de Paulo Roberto Mateus, o Mestre Paulo, paulistano da Casa Verde e filho de um dos fundadores da Unidos do Peruche. Da mesma forma que Beto, Mestre Paulo tem um boné com o nome pintado. Diretor de bateria da Peruche, ele passou a integrar o grupo Samba Autêntico em 2003, quando o irmão caçula o convidou para dar moral ao projeto que engatinhava.

Roda do acarajé – São três horas da tarde do último final de semana de novembro e a música acaba de começar. Gerson Nascimento está vestido de acordo com a ocasião. Usa filá, tradicional chapéu africano, camisa com faixas horizontais vermelha e preta e as letras MPLA na altura do coração, sigla de um partido político angolano. Tudo isso para vender acarajé e algumas outras peculiaridades na Rua do Samba: cuscuz, bolo de mandioca, vatapá e xinxim de galinha, que acompanha arroz. O forte da barraca, porém, é o acarajé. Em média, comercializa cerca de 100, vendidos a R$ 4 cada.

A barraquinha do soteropolitano não tem concorrência. Ao seu lado estão uma de espetinho e mais seis de lanches como cachorro-quente.

Aos domingos, na feira da Praça da República, o figurino muda e ele se torna um típico baiano para turistas, com roupas brancas e demais apetrechos. Lá, vende sete tipos de comidas baianas e, neste caso, o acarajé perde a majestade, mas não o lugar no coração de Gerson.

Foi graças ao quitute que comprou um apartamento na Rua Aurora, depois de chegar a São Paulo na década de 1980, quando trabalhou registrado como caseiro no Itaim Bibi. Após três anos, viu que seu caminho era outro e passou a vender pastel e caldo de cana no bairro da Santa Cecília. Mas, o acarajé estava no sangue, tradição de mãe para filho, que botou em prática logo depois de ingressar no ramo da alimentação. No futuro, se Deus quiser, financiará um “negócio de portinha”, que atenda ao público durante a semana.
A outra roda – J. Guerra, o bar entre as duas versões de Osório, é um típico boteco das antigas: pouco espaço, torresmo exposto atrás do vidro, mesa na calçada e diversos sotaques. O único sinal de modernidade é o copo de plástico, para evitar prejuízo com a batucada e o tremelique da mesa.

João Correia é um cliente exemplar. Historiador carioca de 46 anos, ele tem cabelos compridos, barba comprida e umbigo no balcão. Apesar da carteira de ator profissional, trabalha desde sempre na informalidade, com coleta de dados para pesquisa e, atualmente, na elaboração de projetos sociais para adolescentes em situação de risco.

Quando comento que acho interessante ele não ter perdido o sotaque carioca em 26 anos de São Paulo, logo define: “Minha avó era cearense e deixou o nordeste aos 20 anos. Até o fim da vida não falava vermelho, mas sim encarnado”. Está explicado.

Filho de mãe militante do PT com pai militar (“um milico dos novos tempos, votou no Gabeira”), identificou-se mais com o espírito materno. “Sou um bicho vira-lata da rua, gosto de manifestações culturais na rua. Essa forma de expressão é mais autêntica e transformadora, na medida em que as pessoas passam a conhecer as origens e a própria cultura. Fico emocionado”, diz.

Correia prefere o boteco da Osório com a Andradas ao largo porque o primeiro lhe parece mais com o formato original da Rua do Samba. “No largo, a coisa é mais democrática porque mais pessoas participam, mas aqui na esquina é mais resgate, mais fundo de quintal. Lá é o Rio de Janeiro, glamuroso. Aqui é Niterói, a cidade sorriso”.
Em um ambiente multiétnico, mas predominantemente negro, uma mulher de pele alva, cabelos loiros e óculos escuros desaparece após a fotografarmos na calçada do J. Guerra. Descobrimos que Lúcia é seu nome, mas todos a conhecem como Gringa do Pandeiro. Com esse pseudônimo, a argentina morre de medo de seqüestro. “Talvez pensem que eu tenho euros”. Por isso, não revela o sobrenome e permite apenas que registremos o pandeiro, posto na altura do peito, junto à camiseta com a imagem de São Jorge. “É ‘mía’ alma”, define.

Apesar de viver há três décadas no Brasil, desde quando o marido engenheiro chegou a trabalho, conserva o sotaque castelhano. Aos desembarcar em território brasileiro, passou dois meses na capital carioca, antes de se estabelecer no bairro paulistano do Campo Belo, onde mora desde então. Professora aposentada de inglês e espanhol, formada em piano, sempre amou a música, especialmente o samba.

Gringa do Pandeiro carrega a paixão pelo apelido no pulso direito, repleto de calos. “Toco todos os dias. Às vezes uma hora, quando a dor na coluna ataca. Mas, se estou bem, são três, quatro horas, lá no fundo de ‘mío’ quintal do samba”, orgulha-se.

No largo ou no bar, a festa prossegue até lá pelas oito da noite e o cenário das imediações não muda. A escuridão se aproxima e o abandono dos prédios e das pessoas parece ficar mais evidente no caminho de volta para casa. Para o bem e para o mal, o samba, pai do prazer e filho da dor, não vai morrer. Desde que o samba é samba é assim.

Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Meu peru nunca é preso, com habeas corpus sai ileso

Por Luís Fernando Carvalho *

Caros leitores, queridas leitoras, respeitável público: a primeira vez com peru é inesquecível e leva três dias. No primeiro dia, existe até peru mecânico – ao invés de touro mecânico – para testar o equilíbrio. O segundo dia é meio morno, como se estivesse ali, localizado bem no meio do evento fantástico, a fim de garantir fôlego suficiente para algo desconhecido, uma sensação que está por vir. Então, no terceiro dia, o auge, o êxtase, a explosão de felicidade e prazer, alegrias maravilhosas que tomam conta de todo o ser.

Calma, calma! Eu posso explicar! A Peruada é um evento tradicional da Faculdade de Direito da USP, localizada no Largo São Francisco e carinhosamente chamada de SanFran. Ocorre anualmente, na terceira sexta-feira de outubro, sendo considerada uma manifestação político-etílico-circo-carnavalesca, cujas origens alguns dizem remontar a 1948, quando membros do Centro Acadêmico XI de Agosto furtaram nove perus de raça premiados na Exposição Nacional de Animais do Parque da Água Branca e com eles se banquetearam. Na verdade, há registros de memoráveis festas estudantis organizadas para a “libertação” dos calouros dos suplícios do trote: em 1932, um estudante fantasiou-se de Oswaldo Aranha, vestiu a camisa negra do fascismo e fez malabarismos com um chuchu, que simbolizava Getúlio Vargas.

No primeiro dia, ocorre o chamado Grito do Peru. O famoso Vitão, membro do Diretório Jurídico carinhosamente e informalmente incorporado como patrimônio histórico-cultural da SanFran, abre as festividades de uma maneira bastante excêntrica: segurando um peru – vivo – à frente de um grupo composto por duas mulatas que sambam primorosamente e uma banda de senhores tocando marchinhas de carnaval. Todo o grupo sai do Porão, adentra a Faculdade pelo corredor lateral, na rua Riachuelo, e literalmente dizima as aulas em todas as salas, começando pelas do térreo, onde boa parte dos calouros estudam. Cumprida a primeira parte da tradição, junta-se ao grupo a Bateria de Agravo de Instrumento da São Francisco – BAISF – e a folia definitivamente toma conta das Arcadas, com o samba animando os estudantes até na sua empreitada sobre o peru mecânico. Mais tarde, precisamente às XI e 08 da noite, ocorre a cervejada pré-peruada, e a “lascívia acumulada” começa a ser liberada.

Desde seus primórdios, a festa não ocorreu apenas de 1974 a 1982, por conta da repressão e censura dos governos militares. Seu nome está ligado ao hábito caboclo de dar pinga aos perus, tonteando-os antes do sacrifício. Assim, considerando que os estudantes – calouros ou não – sorvem o ardente líquido com a mesma submissão e posterior volúpia que os animais em questão, percebe-se facilmente o caráter etílico do evento e a pertinência de sua graça. Aliás, existem antigos alunos que não mais freqüentam o maior evento franciscano justamente porque consideram que ele perdeu seu caráter político, focando somente no etílico. A crítica não é totalmente verdadeira, mas por pouco: os estudantes festejam a Peruada basicamente como uma “micareta open bar”, enchendo a cara de cerveja, vodca e jurupinga, além dos artefatos alcoólicos trazidos de casa, como bebidas cujo aroma não é lá muito agradável e cuja aparência faz lembrar os famosos vinhos “sangue de boi” interioranos.

A paquera também corre solta pela festa, digamos, no formato de pegação desenfreada. Seguindo fielmente os princípios dos Tribalistas, segundo os quais “eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”, a massa estudantil une seu estado “etilizado” aos feromônios, resultando numa operação de solta e agarra – diferentemente da operação Satiagraha, esta é efetiva – à luz do dia, nas ruas do centro paulistano.

Neste ano, entoando louca e roucamente os primeiros versos do hino do evento – Vai, vai, vai começar a brincadeira / Tem cerveja de graça a tarde inteira / Vem soltar a lascívia acumulada / Vai, vai, vai começar a Peruada – por quase todo o tempo, os jovens se mostraram animados desde a concentração, no número 138 do Largo do Paissandu. A brincadeira, então, seguiu pelas avenidas São João, Ipiranga e São Luís, atravessou os viadutos Nove de Julho e Jacareí – com uma parada em frente à Câmara Municipal para protestar –, passou pela Rua Maria Paula, subiu o viaduto Brigadeiro Luís Antônio, seguiu pelo Largo São Francisco e pela rua Líbero Badaró, até finalmente contornar a praça Ramos de Azevedo e retornar ao local de origem, lá permanecendo até a noite.

Os protestos, que ocorreram especialmente em frente à Câmara Municipal, refletiram-se nas fantasias e alegorias vestidas e utilizadas pelos participantes. Havia dois rapazes cujos trajes aludiam aos dois militares gays do Exército. O casal buscava chamar a atenção para o preconceito: os chapéus usados por eles tinham detalhes em rosa, bastante chamativos. Havia, ainda, duas moças simbolizando Lehman Brothers, nitidamente satirizando a crise econômica iniciada nos Estados Unidos. Outras belas jovens, em referência à Lei Seca, vestiam-se de táxis, cujas placas traziam os dizeres “Em tempos de Lei Seca, pegue um táxi!”. Foram consagrados no concurso das melhores fantasias políticas e críticas o Vendedor de Habeas Corpus, a Pizzaria 3 Poderes – cuja fantasia relembrava os escândalos com cartões corporativos do governo federal –, os Bobos da Suprema Corte e o grupo do Tio Sam de Calças Curtas.

A festa nas ruas não ficou restrita a universitários. Aliás, longe disso: havia quase uma centena de policiais militares incumbidos de zelar pela segurança, técnicos da Companhia de Engenharia de Tráfego – afinal, centro de São Paulo é centro de São Paulo –, trabalhadores, transeuntes e até mendigos e catadores de latinhas, todos bastante animados, embora muitos sequer soubessem do que é que se tratava aquele “monte de gente pulando com música alta”, nas palavras de um senhor que recolhia latinhas de refrigerante e cerveja enquanto aproveitava todo o aparato musical para, também ele, dançar conforme o ritmo.

Já sem condições inclusive de falar, mas com enorme esforço para resgatar o mínimo de voz na garganta, aqueles que ainda se mantinham de pé cantaram, com sentimento ligeiramente melancólico, os quatro últimos versos do hino da peruada, de autoria de Eduardo Calvert: Vai, vai, vai terminar a brincadeira / Que a cerveja rolou a tarde inteira / Morre o sol, faz-se sombra nas Arcadas / Vai, vai, vai terminar a Peruada.

* Luís Fernando Carvalho, 23. Formado em Relações Internacionais pela Unesp (Franca - 2007), estuda na Faculdade de Direito da USP, trabalha e mora no centro de São Paulo. Viaja muito pelo estado e crê que sua vida seria bem mais próspera se ganhasse milhagens para suas incontáveis viagens de ônibus. Em 2008, participou pela primeira vez da Peruada.

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Passarela eleitoral gratuita

A dois dias das eleições municipais, a tensão e a expectativa tomam conta das campanhas. Cabe aos apoiadores intensificar o contato com parentes, vizinhos, amigos e qualquer grupo potencialmente capaz de reservar uma cadeira na Câmara dos Vereadores ou na prefeitura da cidade. Para os coordenadores, o momento é de bolar formas de cravar o nome do candidato na mente do eleitor. Diz o manual do correligionário: “o último gole é o que mata a sede”.

Já que a Lei da Cidade Limpa fez sumir placas, faixas amarradas de poste a poste e os muros pintados, o jeito foi transformar carros em outdoors e utilizar estruturas que cortam os caminhos congestionados da capital paulista para divulgar a imagem e os números dos postulantes a cargos no Executivo.

Sobre a Avenida Alcântara Machado, mais conhecida como Radial Leste, uma das vias mais temidas por quem deseja ultrapassar os 20 quilômetros por hora que o velocímetro do carro costuma marcar durante boa parte do dia no local, fica a passarela Salvador Rodrigues, um banquete para os grupos de apoio dos políticos.

Na manhã de primeiro de outubro, dia do idoso, Josefa Ferreira, 62, segurava o mastro preto de um bandeira com o nome de Gilberto Kassab, na entrada do lado Mooca da passarela que passa sobre os sentidos centro e bairro da Radial e culmina no lado Brás.

Desde quinta-feira, 25 de setembro, Josefa ganha para ocupar viadutos da região e promover o nome do atual prefeito, das 07 às 13 horas. Até então, tinha dado sorte: tempo frio, sol ameno. Não foi o caso dessa quarta-feira de calor intenso. Mas, ela não reclama, considera a atividade tranqüila. Pode revezar com a senhora que a acompanha e descansar sentada no chão. Para não ter problemas com os raios ultravioletas, usa um boné jeans para proteger o rosto arredondado e procura esconder o corpo de 1,52 sob a sombra da construção que serve de abrigo também para um vendedor de churrasco. Assim aguarda a chegada do “fiscal” que a levará de volta para casa.

Vestindo jaleco verde com o nome de Kassab, tênis branco e óculos de aros redondos, os quais esconde para tirar fotos, ela conta que mora no bairro Juscelino, região de Itaquera. Soube da vaga de apoiadora por meio de uma associação de idosos chamada Novo Amanhecer. “Não há nada prometido, mas disseram que se precisarem da gente depois para alguma coisa podem até chamar”. Ela fez ficha, deixou todos os dados.

O primeiro emprego foi em Pernambuco, aos 13 anos, em uma fábrica. O único “fichado”. Aos 14 veio para São Paulo com a madrinha e a mãe de uma amiga. Até completar 20 anos, trabalhou em casas de família. Depois, casou e o marido não deixou mais que ela trabalhasse fora. Há 10 anos, o esposo faleceu, vítima de diabetes. “Se não fossem meus filhos já teria voltado para Recife”, comenta, citando os quatro que teve em território paulistano.

O que mais incomoda Josefa Ferreira são os problemas da saúde pública, o tempo que demora para marcar uma consulta e o custo de vida. “Quando eu cheguei, dava para ganhar dinheiro em São Paulo. Era disso que mais gostava. Agora, nem isso dá mais”.

Será que votará no patrão a quem diz não ter a honra de conhecer pessoalmente? “Sim, estou trabalhando para o homem. Fazer o quê? Não posso trair”.

Logo à frente, Celso Jatene, vereador candidato à reeleição, revela-se um estrategista, verdadeiro Vanderlei Luxemburgo do pleito. As doações ao time Scorpions, da Vila Antonieta, bairro da zona leste, geraram voluntários. Não me refiro aos gandulas, mas aos próprios atletas da equipe.

Caso de Ricardo Pontes, 23, goleiro da equipe e um dos três craques sobre a Salvador Rodrigues. Armazenista desempregado, casado e pai de uma filha, atuou entregando panfletos nas eleições anteriores e agora segura uma faixa de plástico com a imagem, o nome e o número de Jatene na parte central da passarela. De acordo com a Lei da Cidade Limpa, não poderia fixar qualquer objeto de propaganda no local de trânsito de pedestres, porém, honestamente, com um sol de rachar quem é que vai implicar se ele amarrar as hastes de madeira ao corrimão com um arame discreto e colocar a mão por cima? Uma gambiarra inofensiva e imperceptível, já que o material não está pendurado.

Barba por fazer, não é mais garoto e assim mesmo recebeu alguns lembretes dos coordenadores da campanha: não sujar o espaço público e não jogar nada na avenida. “Somos a imagem do cara”, diz, referindo-se ao representante do PTB e ciente da responsabilidade que lhe cabe.

Às vezes senta sobre um caixote, às vezes bate um papo com os colegas de labuta. Sobretudo, é um homem de opinião: não votará em Celso Jatene. Já para prefeito, escolheu o chefe de Josefa. “Minha expectativa é que o Kassab mantenha e acelere o que está fazendo. Se outro entrar, vai ter mudança e aí pára tudo o que já tem. A saúde no nosso bairro melhorou, mas emprego ainda está difícil”, aponta.

Depois de sexta-feira, Pontes deixará a passarela e voltará à fila dos desempregados. Com um boné para se proteger do sol.